REVISÃO DE ESCOPO (SCOPING REVIEW): O QUE É E COMO FAZER 

Por Profª Drª Graziela De Luca Canto e Profa. Helena Polmann · Cobe Plus · Atualizado em [27/10/2026]


Você tem um tema amplo, ainda pouco explorado, e não sabe se já existe pesquisa suficiente sobre ele. Ou quer entender como um conceito vem sendo definido e estudado na literatura. É exatamente para isso que existe a revisão de escopo.

Neste guia, você vai entender o que é uma revisão de escopo, quando ela é a escolha certa (e quando não é), como formular a pergunta com o PCC e quais são as etapas para conduzir e relatar a sua revisão segundo o JBI e o PRISMA-ScR.

O QUE É UMA REVISÃO DE ESCOPO?

A revisão de escopo, também chamada de scoping review, é um tipo de síntese de evidências que identifica e mapeia, de forma sistemática, a amplitude da evidência disponível sobre um tema, campo, conceito ou questão. Ela costuma incluir fontes de vários tipos: estudos primários, revisões e até evidência não empírica, como documentos de política e diretrizes. Essa é a definição adotada pelo grupo de metodologia do JBI (Munn et al., 2022).

O método ganhou forma com o artigo de Arksey e O’Malley (2005), que propôs o primeiro framework em cinco estágios. Depois, Levac e colaboradores (2010) refinaram essas etapas, e o JBI consolidou o guidance metodológico mais usado hoje.

Um ponto importante: revisão de escopo não é a “versão fácil” da revisão sistemática. Ela tem rigor próprio, exige protocolo, busca sistemática, seleção por dois revisores e relato transparente.

PARA QUE SERVE UMA REVISÃO DE ESCOPO?

A revisão de escopo responde perguntas que uma revisão sistemática de efetividade não responde. Ela é indicada quando você quer:

  • Identificar que tipos de evidência existem sobre um tema e onde estão as lacunas de pesquisa.
  • Esclarecer conceitos e definições: como um termo é definido e usado na literatura.
  • Examinar como a pesquisa é conduzida em uma área: métodos, desenhos, instrumentos e desfechos usados.
  • Identificar características ou fatores relacionados a um conceito.
  • Preparar uma revisão sistemática futura: saber se existe literatura suficiente e quais critérios de inclusão fariam sentido.
  • Apoiar o desenvolvimento de diretrizes, identificando documentos e diretrizes já existentes.

QUANDO A REVISÃO DE ESCOPO NÃO É A ESCOLHA CERTA

Se a sua pergunta é sobre efetividade de uma intervenção, acurácia de um teste diagnóstico ou estimativa de prevalência, você provavelmente precisa de uma revisão sistemática. A revisão de escopo não avalia de forma obrigatória o risco de viés dos estudos incluídos nem a certeza da evidência. Por isso, ela não deve ser usada para recomendar práticas clínicas ou políticas.

Um sinal de alerta: se você está planejando extrair tamanhos de efeito, estimativas de prevalência ou valores de significância para concluir “o que funciona”, provavelmente o método certo é a revisão sistemática (Pollock et al., 2023).

DIFERENÇA ENTRE REVISÃO SISTEMÁTICA E REVISÃO DE ESCOPO

As duas são sistemáticas, transparentes e reproduzíveis. O que muda é a pergunta e, a partir dela, todo o resto.

AspectoRevisão sistemáticaPergunta focadaRevisão de escopoMapeamento amplo
PerguntaEstreita e específica (ex.: efetividade de uma intervenção)Ampla (características, definições, fatores, tipos de evidência)
Framework da perguntaGeralmente PICO ou variaçõesPCC (População, Conceito, Contexto)
Fontes incluídasDepende da pergunta; pode se restringir a certos desenhosPraticamente qualquer tipo de fonte
Avaliação de risco de viésObrigatóriaOpcional, não obrigatória
ExtraçãoFoco em resultados e achadosFoco em características, métodos e conceitos
AnáliseSíntese dos achados, podendo incluir meta-análiseFrequências, tabelas e, quando necessário, análise de conteúdo qualitativa básica
Certeza da evidência (GRADE)SimNão
Guia de relatoPRISMA 2020PRISMA-ScR
Principal impactoInforma prática clínica, políticas e diretrizesInforma prioridades de pesquisa e, às vezes, políticas

Pergunta

Sistemática: Estreita e específica (ex.: efetividade de uma intervenção)

Escopo: Ampla (características, definições, fatores, tipos de evidência)

Framework da pergunta

Sistemática: Geralmente PICO ou variações

Escopo: PCC (População, Conceito, Contexto)

Fontes incluídas

Sistemática: Depende da pergunta; pode se restringir a certos desenhos

Escopo: Praticamente qualquer tipo de fonte

Avaliação de risco de viés

Sistemática: Obrigatória

Escopo: Opcional, não obrigatória

Extração

Sistemática: Foco em resultados e achados

Escopo: Foco em características, métodos e conceitos

Análise

Sistemática: Síntese dos achados, podendo incluir meta-análise

Escopo: Frequências, tabelas e, quando necessário, análise de conteúdo qualitativa básica

Certeza da evidência (GRADE)

Sistemática: Sim

Escopo: Não

Guia de relato

Sistemática: PRISMA 2020

Escopo: PRISMA-ScR

Principal impacto

Sistemática: Informa prática clínica, políticas e diretrizes

Escopo: Informa prioridades de pesquisa e, às vezes, políticas

Quadro elaborado com base em Pollock et al. (2024).

Existem ainda tipos vizinhos, como a mapping review, os evidence and gap maps e as overviews de revisões. A revisão de escopo se diferencia deles por permitir extração detalhada e uma análise que vai além da contagem, explorando como um conceito é usado na literatura.

Quer saber mais sobre revisões sistemáticas? clique aqui

COMO FORMULAR A PERGUNTA: O ACRÔNIMO PCC

Na revisão de escopo, o JBI recomenda estruturar a pergunta e os critérios de elegibilidade com o PCC:

  • P — População: quem são os participantes ou o objeto de interesse.
  • C — Conceito: o fenômeno, a intervenção, a característica ou a questão central que você quer mapear.
  • C — Contexto: o cenário, por exemplo local geográfico, nível de atenção, ambiente cultural ou período.

Exemplo: “Quais sequelas são relatadas nos dentes permanentes sucessores após traumatismo em dentes decíduos?”

  • P: dentes permanentes sucessores de dentes decíduos traumatizados
  • C: sequelas relatadas e fatores associados
  • C: só deve ser definido se houver um cenário realmente relevante para a pergunta

Um erro comum é forçar o Contexto só para “preencher” o acrônimo. Ele só entra quando representa um recorte real da sua pergunta e dos seus critérios de inclusão.

COMO FAZER UMA REVISÃO DE ESCOPO: AS 9 ETAPAS DO JBI

O JBI organiza a condução da revisão de escopo em nove etapas. As três primeiras acontecem no protocolo.

  1. Definir os objetivos e a pergunta. Objetivo e pergunta precisam estar alinhados entre si.
  2. Definir os critérios de inclusão com base no PCC e alinhados à pergunta.
  3. Planejar busca, seleção, extração, análise e apresentação. Tudo isso fica descrito no protocolo, antes de começar.
  4. Buscar a evidência. Em bases de dados escolhidas conforme o tema, além de literatura cinzenta e busca nas referências dos estudos. O ideal é ter um bibliotecário ou especialista em busca na equipe.
  5. Selecionar a evidência. Em duas fases (títulos e resumos, depois texto completo), com dois revisores independentes e um terceiro para resolver discordâncias.
  6. Extrair a evidência com um formulário padronizado e pilotado pela equipe.
  7. Analisar os resultados, geralmente com frequências e, se a pergunta pedir, análise de conteúdo qualitativa básica.
  8. Apresentar os resultados em tabelas, gráficos e resumos visuais acompanhados de narrativa.
  9. Resumir a evidência e concluir, apontando as implicações para pesquisa futura, sem extrapolar o que o método permite.

O PROTOCOLO E O REGISTRO

Toda revisão de escopo deve ter um protocolo definido antes da busca. Como o PROSPERO não registra revisões de escopo, o caminho mais usado é registrar o protocolo no OSF (Open Science Framework) ou publicá-lo em periódico.

EXTRAÇÃO E APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

Na revisão de escopo, você extrai apenas o que responde à sua pergunta. Isso pode incluir autor, ano, país, desenho do estudo, população, como o conceito foi definido, instrumentos usados e desfechos avaliados.

O formulário de extração deve ser testado (pilotado) pela equipe antes do uso. A boa prática é ter dois revisores extraindo de forma independente ou, quando isso não for possível, um revisor extraindo e outro conferindo. Se novos itens forem incluídos durante o processo, isso deve ser relatado como desvio do protocolo.

Para apresentar, use tabelas e recursos visuais, como mapas de calor por país, gráficos de barras por tipo de estudo e nuvens de palavras, sempre acompanhados de um texto descritivo (Pollock et al., 2023).

COMO RELATAR PRISMA-ScR

O PRISMA-ScR (Tricco et al., 2018) é a extensão do PRISMA para revisões de escopo. Ele tem 20 itens essenciais e 2 opcionais, além do fluxograma que mostra quantos registros foram identificados, triados, excluídos e incluídos.

Atenção: o PRISMA-ScR está em processo de atualização. Até a nova versão ser publicada, a versão de 2018 continua sendo a referência.

Lembre que o PRISMA-ScR é um guia de relato. Ele diz o que reportar, não como conduzir. A condução segue o guidance metodológico do JBI.

ERROS MAIS COMUNS EM REVISÕES DE ESCOPO

  • Escolher revisão de escopo porque parece mais simples que a sistemática, quando a pergunta pedia outro tipo de revisão.
  • Começar sem protocolo ou sem registrar o protocolo.
  • Forçar o Contexto do PCC sem que ele faça sentido na pergunta.
  • Fazer a seleção com um único revisor.
  • Extrair resultados de efetividade e concluir “o que funciona”.
  • Fazer recomendações para a prática clínica sem ter avaliado risco de viés nem certeza da evidência.
  • Confundir o PRISMA-ScR com o método de condução.

PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE REVISÃO DE ESCOPO

  • Revisão de escopo e scoping review são a mesma coisa?

Sim. Scoping review é o nome em inglês. Na literatura antiga também aparece como scoping study.

  • Revisão de escopo precisa avaliar risco de viés?

Não é obrigatório. Segundo o JBI, a avaliação crítica é opcional na revisão de escopo. Se você fizer, deve justificar no protocolo para que ela serve.

  • Revisão de escopo pode ter meta-análise?

Não. Métodos de síntese como meta-análise respondem perguntas de efetividade, que não são o objetivo de uma revisão de escopo.

  • Posso registrar uma revisão de escopo no PROSPERO?

Não. O PROSPERO não aceita revisões de escopo. Use o OSF ou publique o protocolo em um periódico.

  • Dá para fazer uma revisão de escopo sozinho?

Não é recomendado. A seleção e a extração exigem pelo menos dois revisores, e o ideal é ter na equipe alguém com experiência no tema, alguém com experiência em método e um especialista em busca.

  • Quanto tempo leva uma revisão de escopo?

Depende do tamanho do tema e da quantidade de estudos. Revisão de escopo não é sinônimo de revisão rápida: muitas levam vários meses.

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SOBRE AS AUTORAS

  • Profª Drª Graziela De Luca Canto é fundadora da Cobe Plus, autora do livro Revisões Sistemáticas da Literatura: Guia Prático e está entre os 2% cientistas mais influentes do mundo segundo o ranking Stanford (2020–2025).
  • Profa. Helena Polmann é coordenadora da Cobe Plus, integra a equipe desde 2015 e atua no ensino de revisões sistemáticas e de escopo

REFERÊNCIAS

  1. Arksey H, O’Malley L. Scoping studies: towards a methodological framework. Int J Soc Res Methodol. 2005;8(1):19-32. https://doi.org/10.1080/1364557032000119616
  2. Levac D, Colquhoun H, O’Brien KK. Scoping studies: advancing the methodology. Implement Sci. 2010;5:69. https://doi.org/10.1186/1748-5908-5-69
  3. Tricco AC, et al. PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR): checklist and explanation. Ann Intern Med. 2018;169(7):467-473. https://doi.org/10.7326/M18-0850
  4. Munn Z, et al. What are scoping reviews? Providing a formal definition of scoping reviews as a type of evidence synthesis. JBI Evid Synth. 2022;20(4):950-952.
  5. Pollock D, et al. Recommendations for the extraction, analysis, and presentation of results in scoping reviews. JBI Evid Synth. 2023;21(3):520-532.
  6. Pollock D, et al. “How-to”: scoping review? J Clin Epidemiol. 2024;176:111572.
  7. Aromataris E, Lockwood C, Porritt K, Pilla B, Jordan Z (Eds.). JBI Manual for Evidence Synthesis. JBI; 2024. https://jbi-global-wiki.refined.site/space/MANUAL

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