REVISÃO SISTEMÁTICA: O QUE É E COMO FAZER 

Por Profª Drª Graziela De Luca Canto e Profa. Helena Polmann · Cobe Plus · Atualizado em [28/10/2026]

 

A revisão sistemática está no topo da pirâmide de evidências quando bem conduzida. É ela que orienta diretrizes clínicas, decisões em saúde e políticas públicas. Mas, para chegar lá, cada etapa precisa seguir um método rigoroso.

Neste guia, você vai entender o que é uma revisão sistemática, como ela se diferencia de outros tipos de revisão e quais são as etapas para conduzi-la e relatá-la, com base no Cochrane Handbook, no JBI e no PRISMA 2020.

O QUE É UMA REVISÃO SISTEMÁTICA?

A revisão sistemática reúne toda a evidência empírica que atende a critérios de elegibilidade definidos previamente, para responder uma pergunta de pesquisa específica. Ela usa métodos explícitos e sistemáticos, escolhidos para minimizar vieses e produzir resultados mais confiáveis (Cochrane Handbook).

Na prática, isso significa que tudo é planejado antes: a pergunta, os critérios de inclusão, as bases de dados, a forma de selecionar os estudos, a ferramenta de risco de viés e a estratégia de síntese. Qualquer pessoa que repetir o processo deve chegar a resultados semelhantes.

REVISÃO DE ESCOPO x REVISÃO NARRATIVA

AspectoRevisão narrativaVisão geral do temaRevisão sistemáticaMétodo explícito e reprodutível
PerguntaAmpla, nem sempre definidaEspecífica e definida antes de começar
ProtocoloGeralmente não temObrigatório, de preferência registrado
BuscaNão precisa ser reprodutívelAbrangente, em várias fontes, documentada e reprodutível
Seleção dos estudosCritério do autorCritérios pré-definidos, com dois revisores independentes
Avaliação dos estudosNem sempre feitaAvaliação do risco de viés obrigatória
SínteseNarrativa, sem método definidoEstruturada, podendo incluir meta-análise

Pergunta

Narrativa: Ampla, nem sempre definida

Sistemática: Específica e definida antes de começar

Protocolo

Narrativa: Geralmente não tem

Sistemática: Obrigatório, de preferência registrado

Busca

Narrativa: Não precisa ser reprodutível

Sistemática: Abrangente, em várias fontes, documentada e reprodutível

Seleção dos estudos

Narrativa: Critério do autor

Sistemática: Critérios pré-definidos, com dois revisores independentes

Avaliação dos estudos

Narrativa: Nem sempre feita

Sistemática: Avaliação do risco de viés obrigatória

Síntese

Narrativa: Narrativa, sem método definido

Sistemática: Estruturada, podendo incluir meta-análise

E A REVISÃO DE ESCOPO?

A revisão de escopo também é sistemática, mas responde perguntas mais amplas, como mapear que tipo de evidência existe sobre um tema. Ela não tem como objetivo responder se uma intervenção funciona. Veja a comparação completa AQUI.

REVISÃO SISTEMÁTICA E META-ANÁLISE SÃO A MESMA COISA?

Não. A revisão sistemática é o método completo, da pergunta à conclusão. A meta-análise é uma técnica estatística que pode ou não fazer parte dela: combina os resultados de estudos diferentes em uma única estimativa.

Nem toda revisão sistemática deve ter meta-análise. Ela só faz sentido quando os estudos são suficientemente parecidos em população, intervenção ou exposição, comparador, desfecho e tempo de acompanhamento. Quando não são, a síntese é feita de forma estruturada, sem combinar os números.

Que tipos de pergunta uma revisão sistemática responde?

A revisão sistemática não serve só para intervenções. Ela pode responder perguntas sobre:

  • Efetividade de intervenções: um tratamento funciona melhor que outro?
  • Prevalência e incidência: com que frequência uma condição ocorre?
  • Acurácia diagnóstica: um teste identifica corretamente quem tem a condição?
  • Prognóstico: o que acontece com pacientes ao longo do tempo e quais fatores influenciam isso?
  • Etiologia e fatores de risco: uma exposição está associada a um desfecho?
  • Experiências e percepções: por meio de revisões de evidência qualitativa.

Cada tipo de pergunta tem seu próprio framework, ferramentas de avaliação e forma de síntese. Por isso, identificar corretamente o tipo de pergunta é a primeira decisão da revisão.

Como formular a pergunta: o acrônimo PICO

Para perguntas sobre intervenções, o framework mais usado é o PICO:

  • P — População: quem são os participantes.
  • I — Intervenção: o tratamento ou a ação avaliada.
  • C — Comparador: com o que a intervenção é comparada.
  • O — Outcome (desfecho): o que será medido.

Exemplo: “Em adultos com apneia obstrutiva do sono (P), o aparelho intraoral (I), comparado ao CPAP (C), reduz o índice de apneia-hipopneia (O)?”

Para outros tipos de pergunta, existem variações. Em estudos de exposição, por exemplo, usa-se o PECO, com E de Exposição. O importante é que o framework reflita a sua pergunta, e não o contrário.

Como fazer uma revisão sistemática: as etapas

  1. Formular a pergunta e definir o tipo de revisão.
  2. Definir os critérios de elegibilidade: quais estudos entram e quais ficam de fora.
  3. Escrever e registrar o protocolo. O PRISMA-P orienta o que o protocolo deve conter. O registro costuma ser feito no PROSPERO, o que dá transparência e evita duplicação de revisões.
  4. Elaborar e executar a busca em múltiplas bases de dados escolhidas conforme o tema (como PubMed/MEDLINE, Embase, Scopus, Web of Science, LILACS e CENTRAL), além de literatura cinzenta e busca nas referências. O PRISMA-S orienta como relatar a busca.
  5. Selecionar os estudos em duas fases (títulos e resumos, depois texto completo), com dois revisores independentes e um terceiro para resolver discordâncias. Ferramentas como o Rayyan ajudam nessa etapa.
  6. Extrair os dados com um formulário padronizado e testado pela equipe.
  7. Avaliar o risco de viés dos estudos incluídos, com ferramentas adequadas à pergunta e ao desenho.
  8. Sintetizar os resultados, com ou sem meta-análise, conforme a compatibilidade entre os estudos.
  9. Avaliar a certeza da evidência, geralmente com o GRADE.
  10. Relatar a revisão seguindo o PRISMA 2020, com o fluxograma de seleção.

Risco de viés: como escolher a ferramenta

O risco de viés indica o quanto o desenho, a condução ou a análise de um estudo podem ter distorcido o resultado. A ferramenta deve ser escolhida conforme a pergunta, o desenho e o que está sendo avaliado. Alguns exemplos:

  • RoB 2: ensaios clínicos randomizados.
  • ROBINS-I: estudos não randomizados de intervenções.
  • QUADAS-2: estudos de acurácia diagnóstica.
  • Ferramentas do JBI: diferentes desenhos, como estudos de prevalência, transversais e qualitativos.

Cuidado com dois erros comuns: escolher a ferramenta só pelo nome do desenho (por exemplo, “é observacional, então uso ROBINS-I”) e transformar a avaliação em uma nota de qualidade.

Certeza da evidência: o GRADE

Risco de viés e certeza da evidência são coisas diferentes. O risco de viés avalia cada estudo. O GRADE avalia o conjunto da evidência para cada desfecho, considerando risco de viés, inconsistência, evidência indireta, imprecisão e viés de publicação. O resultado é a certeza da evidência: alta, moderada, baixa ou muito baixa.

Como relatar: PRISMA 2020

O PRISMA 2020 é o guia de relato de revisões sistemáticas. Ele tem um checklist de 27 itens e um fluxograma que mostra o caminho dos registros desde a identificação até a inclusão.

O PRISMA diz o que relatar, não como conduzir a revisão. A condução segue os manuais metodológicos, como o Cochrane Handbook e o JBI Manual for Evidence Synthesis.

Erros mais comuns em revisões sistemáticas

  • Começar a busca antes de ter o protocolo definido e registrado.
  • Buscar em uma única base de dados.
  • Fazer a seleção com um único revisor.
  • Escolher a ferramenta de risco de viés só pelo desenho do estudo.
  • Fazer meta-análise automaticamente, sem avaliar se os estudos podem ser combinados.
  • Usar o I² como regra de decisão: I² alto não proíbe, e I² baixo não autoriza automaticamente a meta-análise.
  • Confundir risco de viés com certeza da evidência.
  • Usar o PRISMA como se fosse o método da revisão.

PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE REVISÃO SISTEMÁTICA

  • É obrigatório registrar a revisão sistemática no PROSPERO?

O registro do protocolo é uma boa prática fortemente recomendada, e muitos periódicos exigem. O PROSPERO é o registro mais usado para revisões com desfechos relacionados à saúde

  • Quantos estudos são necessários apra uma meta-análise?

Tecnicamente, dois. Mas a decisão não depende só do número: os estudos precisam ser compatíveis para que a estimativa combinada tenha sentido.

  • Dá para fazer uma revisão sistemática sozinho?

Não. A seleção e a extração exigem pelo menos dois revisores independentes. O ideal é ter na equipe especialistas no tema, no método, em busca e, se houver meta-análise, em estatística.

  • Quanto tempo leva uma revisão sistemática?

Depende da pergunta e do volume de estudos. Em geral, leva meses, e revisões grandes podem passar de um ano.

  • Posso usar revisão inteligência artificial na revisão sistemática?

Pode, como ferramenta de apoio, com verificação humana e relato transparente: qual ferramenta, versão, em que etapa e como os resultados foram conferidos. A IA não substitui as decisões metodológicas da equipe.

 

APRENDA A FAZER SUA REVISÃO SISTEMÁTICA COM O COBE PLUS

No Curso Revisão Sistemática da Cobe Plus, você aprende cada etapa na prática, da pergunta PICO ao relato com o PRISMA 2020, incluindo busca, risco de viés e meta-análise, com professoras que ensinam e publicam revisões sistemáticas há anos.

SOBRE AS AUTORAS

  • Profª Drª Graziela De Luca Canto é fundadora da Cobe Plus, autora do livro Revisões Sistemáticas da Literatura: Guia Prático e está entre os 2% cientistas mais influentes do mundo segundo o ranking Stanford (2020–2025).
  • Profa. Helena Polmann é coordenadora da Cobe Plus, integra a equipe desde 2015 e atua no ensino de revisões sistemáticas e de escopo

REFERÊNCIAS

  1. Higgins JPT, Thomas J, Chandler J, et al. (Eds.). Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions. Versão atual. Cochrane. https://training.cochrane.org/handbook
  2. Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ. 2021;372:n71. https://doi.org/10.1136/bmj.n71
  3. Moher D, et al. Preferred reporting items for systematic review and meta-analysis protocols (PRISMA-P) 2015 statement. Syst Rev. 2015;4:1.
  4. Rethlefsen ML, et al. PRISMA-S: an extension to the PRISMA Statement for Reporting Literature Searches in Systematic Reviews. Syst Rev. 2021;10:39.
  5. Sterne JAC, et al. RoB 2: a revised tool for assessing risk of bias in randomised trials. BMJ. 2019;366:l4898.
  6. Sterne JAC, et al. ROBINS-I: a tool for assessing risk of bias in non-randomised studies of interventions. BMJ. 2016;355:i4919.
  7. Whiting PF, et al. QUADAS-2: a revised tool for the quality assessment of diagnostic accuracy studies. Ann Intern Med. 2011;155(8):529-536.
  8. Schünemann H, Brożek J, Guyatt G, Oxman A (Eds.). GRADE Handbook. https://gdt.gradepro.org/app/handbook/handbook.html
  9. Aromataris E, Lockwood C, Porritt K, Pilla B, Jordan Z (Eds.). JBI Manual for Evidence Synthesis. JBI; 2024. https://jbi-global-wiki.refined.site/space/MANUAL
  10. PROSPERO — International prospective register of systematic reviews. https://www.crd.york.ac.uk/prospero/
  11.  

FALE CONOSCO

Preencha o formulário abaixo e converse conosco

Atenção: “Nós não compartilharemos seu contato com terceiros. O tratamento de dados nesta empresa acontece em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Você está seguro(a).

Copyright © 2025 – Cobe Plus | Todos os direitos reservados.